Da calçada à cozinha

Por Gabriel Cariello, Lucas Varidel, Marcela Fotté, Julia Pinto e Rafael Ribeiro

Janeiro de 1991, Edna Dantas, pela Folha de São Paulo publica a matéria ”O Lixo da Casa da Dinda”. Assim, revelou a privacidade do então presidente da República, Fernando Collor, através do lixo deixado na rua para que lixeiros o recolhessem. Essa foi uma das grandes reportagens da carreira da repórter. A principal, segundo ela, em toda sua trajetória em diários.
Aos 12 anos, Edna e seu irmão ligaram para a Rádio Independente, de Brasília, e participaram de um programa ao vivo. Ficaram no ar por diversos minutos, cantando e respondendo perguntas. Após o término do programa, o radialista Edinho Maia pediu para falar com ela fora do ar. Por ter gostado muito de sua participação, o radialista a convidou a participar diariamente, fazendo matérias sobre seu bairro. Deram-lhe um gravador, para que entrevistasse suas amigas, familiares, etc. Edna adorou, e os radialistas também. Propuseram-na então um programa próprio. Conversou com seu pai, quem sempre lhe apoiou, e decidiu não aceitar, pois poderia se complicar nos estudos – já era madura o suficiente para saber a importância de se formar academicamente. Apesar da recusa, já tinha decidido seu futuro: o jornalismo.
Em 1981, Edna ingressou na universidade Centro Universitário de Brasília, a atual UniCEUB, no curso de jornalismo. Uma universidade particular, melhor que a UNB (Universidade de Brasília) na área de Comunicação, na época. Esforçou-se para antecipar a formatura, devido à sua ansiedade em trabalhar, terminando o curso em três anos e meio. Durante alguns períodos da faculdade, estudava, estagiava e trabalhava. Trabalhou no Ministério Público, mas abandonou o emprego após quatro meses, para estagiar com comunicação, na Caixa Econômica Federal, como recepcionista da presidência. Neste emprego, Edna, que estava em seu segundo ano na faculdade, foi convidada por Aluízio Alves, futuro ministro da Administração do governo de José Sarney, a participar de sua assessoria de imprensa, caso ocupasse o cargo no ministério, o que acabou acontecendo. Conseguiu então seu primeiro emprego com carteira assinada, ainda na faculdade. Juntamente com esse emprego e a faculdade, também estagiou na televisão. Porém, por não ter uma voz adequada, desistiu de seguir carreira nessa mídia.
Funcionária de grandes jornais brasileiros, Edna começou, ao sair da faculdade, no Jornal de Brasília, onde sua matéria-teste, para ingressar no jornal, foi capa da edição do dia seguinte. Iniciou na editoria de cidade, mas logo passou a acompanhar a política e a economia nacional. Convidada para trabalhar na sucursal de Brasília do Estado de São Paulo, iniciando assim sua trajetória pelos principais diários nacionais. Foi no “Estadão” que Edna cobriu as eleições presidenciais de 1989, 25 anos após o golpe militar que extinguiu a democracia no país. A grandiosidade do evento colocou Edna entre os grandes repórteres do país na época. Após a decepção com a vitória de Collor, se filiou ao PT e foi para a Inglaterra para estudar ciências políticas, onde passou um ano.
Esse caso exemplifica o envolvimento tão grande de Edna com sua profissão. “Jornalismo é paixão”, diz, sobre uma de suas principais características. Característica essa que, segundo ela, falta a muitos jornalistas de hoje. “Muitos acreditam que jornalismo é uma vidinha de ganhar bem e trabalhar pouco. Jornalista trabalha muito. Não tem rotina e nem feriado, quanto mais jornalista de jornal”, afirma. Edna diz ainda que muitos ingressam na profissão em busca da fama, achando que não existe uma rotina ou pressão.
Ao voltar da Inglaterra, Edna foi contratada pela sucursal de Brasília da Folha de São Paulo, que segundo ela, foi sua melhor passagem por diários pelo fato de o jornal ser uma grande escola de apuração. Trabalhou durante quatro meses e fez uma importante reportagem sobre o lixo do presidente Collor. Ao comentar o caso, Edna afirma que tinha muita disposição para apurar os fatos, vasculhando o lixo da casa do então presidente. Em sua busca, descobriu que os discursos do presidente não eram escritos por ele. Descobriu também que a esposa de Collor, Rosane, usava cheques de “fantasmas” e “laranjas” para pagar compras de roupas íntimas. Na época, os caras-pintadas – manifestantes no processo de impeachment do ex-presidente Fernando Collor de Mello – usaram sua reportagem para criar palavras de ordem, uma espécie de grito de guerra. “Rosane, sua galinha, é o PC que compra sua calcinha”, diziam os revoltados.
Ainda pela Folha, cobriu o presidente Collor na Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente, a Rio-92. Acabou apaixonando-se pelos encantos da “cidade maravilhosa” e foi convidada a trabalhar na sucursal da Folha no Rio, onde esteve por dois anos. Em seguida, foi convidada a participar da revista Veja, em São Paulo, onde permaneceu durante um ano e meio. Ainda no grupo Abril, trabalhou na revista Istoé, como repórter especial. Após essas passagens por algumas das maiores revistas do país, montou uma assessoria de imprensa, mas não gostou.
Foi convidada, então, para ser a diretora da redação da Revista Carícia, destinada ao público adolescente feminino. Foi onde teve uma virada em sua carreira – já que sempre trabalhou em editorias de economia, política ou cidade – e alcançou uma grande realização profissional, pois sentia que tinha responsabilidade por estar formando um público. “Meninas têm necessidade de serem escutadas, e a revista tocava em pontos que elas não conversavam com seus pais”, conta Edna.
Pelo trabalho na Carícia, Edna ganhou o título de Jornalista Amigo das Crianças, conferido pela Agência de Notícia dos Direitos da Infância (ANDI). O título da ANDI reconhece profissionais de comunicação cujo trabalho é pautado pelo compromisso com a agenda social e os direitos da criança e do adolescente. Com esse título, Edna se juntou a grandes nomes do jornalismo brasileiro como William Bonner, Pedro Bial, Zeca Camargo e Caco Barcelos. Como a revista Carícia não trazia o lucro esperado para a Editora Abril, foi fechada.
Ao sair da Carícia, Edna passou a trabalhar na Revista Época, onde suas matérias foram capas de diversas edições. Nesse período, ela fez grandes reportagens, como “Eles Mataram” e “Caloteiros da Fé”. A primeira foi um levantamento sobre os números de homicídios no Brasil, onde entrevistou homicidas e serial killers por todo o país. Tal reportagem lhe rendeu uma indicação a um prêmio da Fundação Novo Jornalismo Ibero-americano (FNPI em espanhol), presidida por Gabriel García Márquez, e a colocação da reportagem no livro da Fundação. Na segunda, através de uma competente investigação, Edna desmascarou os bispos da Igreja Renascer, que usavam nomes de fiéis ao fazer aquisições comerciais para a instituição.
“O caso da Renascer foi o último respiro de uma repórter que vai deixar de ser repórter para ir para a cozinha do jornalismo”, diz Edna sobre o caso da Renascer e seu futuro profissional como diretora regional da Rádio Nacional no Rio, onde esteve por três anos, e, atualmente, redatora-chefe da revista QUEM!, em São Paulo.
Hoje, Edna alimenta o sonho de abrir uma revista dirigida ao público feminino. A realização profissional que obteve com a Revista Carícia lhe deixou um “gostinho de quero mais”. Uma revista que se diferenciasse no mercado por ser direcionada para o público feminino – adolescente das classes C e D. “Eu acho que as meninas têm fantasias, têm coisas fúteis, que fazem parte da vida delas”, diz.

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3 Respostas para “Da calçada à cozinha

  1. Professor, depois desse texto merecemos um 10, não é?
    rs.

  2. hahahha Com Certeza!

  3. Vocês ganharam o dez. Só achei que o final podia ser melhor. Em nenhum lugar ficou bem explicado como uma pessoa que passou a vida fazendo jornalismo investigativo, político, desenvolver um gosto por revistas femininas. Isso poderia ser mais bem explorado. De resto, um texto muito prazeroso e interessante de ler

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